PEDAGOGIA WALDORF

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COMENTÁRIOS SOBRE O LIVRO
A DANÇA DO UNIVERSO, DE MARCELO GLEISER

Valdemar W.Setzer
Campos do Jordão, 23/6/00 - versão 2.1 de 30/6/00

Introdução
Acabei de ler o excelente livro de Marcelo Gleiser, A Dança do Universo – dos Mitos de Criação ao Big-Bang (São Paulo: Companhia das Letras, 1997), que há muito estava em minha lista. Recomendo-o a todas as pessoas, pois trata-se de texto que aborda com escrita fascinante, simples e didática a importante história da Física e da Astronomia, que também é em grande parte a história do pensamento humano. Gleiser soube compor relatos claros sobre os mais importantes avanços científicos nessas áreas, abrangendo a história, interessantes aspectos biográficos de pensadores e cientistas que foram responsáveis por esses avanços, cobrindo desde a Grécia antiga até os tempos modernos, e uma tentativa de traçar paralelos entre as visões cosmogônicas atuais e os antigos mitos da criação. Coloco aqui algumas das anotações que fiz durante a leitura, que servem de comentários e críticas; creio que os assuntos são suficientemente relevantes para torná-los públicos através de meu "site". Tenho esperança que o autor venha a ler estas linhas, interesse-se por comentá-las e tenha tempo para isso. Nesse caso, obviamente comprometo-me a colocar suas opiniões ao lado destas.

Aproveito também para escrever alguns dos conceitos de minha visão de mundo, certamente não comum e que não constam de outros artigos em meu "site".

É interessante que de há muito tenho me interessado pela história da Física e da Astronomia, e pelo pensamento científico a elas ligado, no sentido de conhecer esse pensamento, compreender melhor o mundo por meio dele, localizar seus problemas, entender sua influência sobre a visão de mundo da humanidade e buscar e desenvolver alternativas que o aperfeiçoem e ampliem. Acho que posso localizar a origem desse interesse quando, aos 21 anos (em 1961), cursando uma disciplina de Física Moderna, vi o mundo que eu esperava conhecer e compreender através da Física ruir no quadro-negro à minha frente. Foi a época em que comecei a procurar possibilidades de expandir a visão insatisfatória dada pela ciência tradicional, que havia buscado na escola de engenharia brasileira de maior prestígio na época, na tentativa de compreender - quem sabe, juvenilmente dominar o mundo. Dois anos depois, já no último ano da faculdade, fui um dos que tomou uma disciplina optativa de pós graduação sobre Mecânica Quântica, oferecida a alguns alunos de graduação, dada por Newton Bernardes. Curiosamente, ultimamente tenho me dedicado muito ao estudo de questões ligadas à biologia, no intuito de desmistificar as afirmações indevidas que estão sendo feitas em torno do DNA e do genoma, que abordarei muito sucintamente aqui, justamente devido à visão de mundo imposta por essas afirmações: a de que os seres vivos, e o ser humano em particular, são máquinas, com o que nunca pude concordar. Claramente, a Biologia está nesse caminho por influência da Física, que a precedeu nessa visão. Nesse sentido, foi muito interessante ler o capítulo de Gleiser "O Mundo como Máquina". Esta minha volta a antigos interesses na Física e na Astronomia representa um agradável interlúdio.

Talvez fosse interessante colocar inicialmente minha visão de mundo, a fim de se compreender a fonte de minhas concordâncias e discordâncias em relação às idéias de Gleiser. Em primeiro lugar, devo dizer que não tenho religião, no sentido de confissão. Isto é, não sou adepto de nenhuma religião estabelecida. Isso se deve ao fato de que procuro não acreditar em nada (bem, a única coisa em que acredito é que não acredito em nada...). Com isso, não posso admitir nem dogmas nem posições de fé. Minhas posições têm todas o caráter de hipóteses de trabalho, sempre sujeitas a revisão. Uma de minhas hipóteses fundamentais é a de que existem processos no universo que não são físicos ou químicos, isto é, não sou materialista, contrariamente a praticamente todos os cientistas modernos. Vou denominar simplesmente de "mundo não-físico" a sede de processos não-físicos; esse mundo, como o mundo físico, é obviamente estruturado, e em muitos casos permeia o último. Por exemplo, plantas, animais e seres humanos têm componentes não-físicos, sendo o mais "baixo" aquele que possibilita o fenômeno "vida", comum a esses reinos. Mas, como veremos, parece-me claro pelo estudo da Física Moderna que qualquer matéria deve ter uma essência não-física por detrás, isto é, o físico seria uma espécie de "condensação" do não-físico. Assim, posso caracterizar minha visão de mundo como realista-monista: para mim, a manifestação física é real e essencial, mas por trás dela existe sempre algo não-físico que, aliás, é sua origem. Por outro lado, por trás (ou na frente, para nossos sentidos...) de todo o não-físico existe algo físico. Só para ilustrar a referida necessidade, se nós não tivéssemos corpo físico não poderíamos ter desenvolvido a auto-consciência e a liberdade, e é devido à sua existência que podemos exercê-las.

A ciência comumente praticada hoje em dia é puramente materialista, isto é, parte do princípio que somente existem um universo e processos físicos (e químicos, redutíveis aos físicos; hoje em dia há até cientistas que consideram a Biologia como um ramo da Física). Como veremos, isso restringe enormemente seu campo de pesquisa e suas teorias.
Para mim, as religiões estabelecidas são em geral outras formas de materialismo, por considerarem o não-físico uma pura abstração (tradição judaica, que teve na antiguidade uma missão absolutamente essencial no desenvolvimento da humanidade) ou darem importância indevida à manifestação física (o que leva seus seguidores a usar roupas especiais no dia-a-dia, ou preocuparem-se demasiado com a comida, ou necessitarem de um local físico especial como igreja ou templo para exercerem sua religiosidade, usarem posturas corporais para conseguirem se interiorizar e observar supra-sensorialmente o não-físico, usarem drogas para atingir outros estados de consciência onde possam fazer essa observação, etc.), por fazerem orações em benefício próprio, e assim por diante. No entanto, posso dizer que tenho religiosidade, no sentido de procurar ter uma veneração pela Natureza e pelo ser humano, procurando em sua sabedoria infinita a manifestação de forças e entidades não-físicas.

Em segundo lugar, minha formação e atividade acadêmicas e científicas levam-me a querer compreender o universo físico e não-físico, e expressá-los conceitualmente. O misticismo caracteriza-se por expressar o não-físico, e procurar atingi-lo, por meio de sentimentos e não pelos pensamentos. Assim, não me considero um místico. Admito todos os fatos científicos, mas não admito muitos dos julgamentos que são formulados baseados nesses fatos ou em meras elocubrações teóricas. Por exemplo, dizer que a Terra tem 5 bilhões de anos é um julgamento que não posso admitir; esse número é baseado em extrapolações que nenhum engenheiro (minha formação original) ousaria usar em seus projetos, e não leva em conta que o universo e a Terra tiveram outrora condições - físicas e não-físicas - diferentes das de hoje. Parece-me muita pretensão achar que as leis físicas que podemos constatar hoje foram sempre as mesmas, e o são fora de nossas condições, por exemplo, nas estrelas - apesar do seu espectro luminoso revelar a existência dos mesmos elementos aqui existentes. Quem sabe a produção desse espectro "terreniza" a radiação que vem dessas estrelas? Com isso, não posso admitir grande parte das teorias cosmogônicas modernas.

Em terceiro lugar, é preciso esclarecer que, ao admitir como hipótese a existência de processos não-físicos, e admitir todos os fatos científicos, minha visão de mundo torna-se um superconjunto próprio da visão científica materialista corrente. Isto é, admito como válido tudo o que um cientista clássico materialista puder mostrar como fato científico, mas ele, como materialista, não pode admitir as minhas hipóteses e observações sobre o mundo não-físico. É curioso que esse tipo de cientista em geral diz: "só acredito no que vejo", mas ele quer ver ou compreender apenas as manifestações físicas, colocando-se dentro de um verdadeiro poço mental. Em particular, ele admite muita coisa que não vê, pois a ciência hoje é baseada fortemente em instrumentos que influenciam as experiências, não só no nível quântico, mas também pelo fato do instrumento ser construído sempre dentro de uma determinada teoria. Portanto, o que procuro é uma expansão do pensamento e da atividade científicos.

Em quarto lugar, minhas hipóteses da existência de processos e de mundos não-fisicos derivaram inicialmente de observações interiores que qualquer um pode fazer, usando uma Lógica aristotélica para concluir pela existência daqueles processos. Por falar em Aristóteles, ele mesmo observa, em Sobre a Alma, que o ser humano é capaz de entrar em contato com verdades absolutamente objetivas (isto é, independentes do observador) e eternas, como os conceitos matemáticos (o de circunferência, por exemplo). Com isso, ele concluiu, usando sua Lógica terrena, que devemos ter dentro de nós uma "alma" perecível (onde estão, por exemplo, nossos gostos e instintos individuais, que sumirão com nossa morte) e uma "alma" eterna, com a qual entramos em contato com aquelas verdades eternas. Isso é uma elocubração mental válida, mas há algo muito mais simples para cada um vivenciar dentro de si próprio. Sugiro ao leitor uma experiência mental, como chamou Gleiser as várias "Gedankenexperimente" que ele propôs; só que a minha não é de formulação de abstrações. O leitor deve fechar os olhos, procurando criar uma calma interior, sem ter sua atenção e pensamento atraídos por ruídos ou preocupações, e pensar em 2 números, por exemplo de 0 a 9. Em seguida, escolha um desses dois e imagine-o por alguns instantes como que projetado por um mostrador. É preciso fazer um esforço interior para concentrar o pensamento, nem que seja por alguns momentos, na imagem desse mostrador com o número escolhido. Pois bem, é uma vivência interior que qualquer um pode ter de que não há nada, absolutamente nada que imponha a escolha de um ou outro número. Se o leitor reconhecer que prefere um deles, pois é o número inicial de seu telefone ou residência, pode decidir escolher o outro. Não adianta vir uma filósofa, psicóloga, pesquisadora de cognição, neurofisióloga evolucionista ou outra pessoa qualquer dizer que há algo dentro de nosso cérebro que impõe a escolha - afinal, não será possível a essa cientista e nem a qualquer outro nos mostrar o fato científico que comprove essa sua afirmação. Não é essa a vivência interior que temos. Essa vivência é de absoluta liberdade na escolha de um dos dois números e de auto-determinação no sentido de concentrar o pensamento no mostrador. Ora, liberdade não pode advir de leis físicas ou da matéria. Muitos cientistas diriam que o processo é aleatório, isto é, a escolha foi aleatória e não desejada, imposta por nós mesmos. Mas não é essa a nossa vivência interior: quem acha que seu comportamento é aleatório nessa experiência e na vida comum? Por outro lado, não conseguimos imaginar nenhuma máquina concreta ou abstrata que seja auto-determinada. Máquinas podem ser deterministas (como os computadores digitais, fonte essencial de sua utilidade, senão não poderíamos confiar em seus resultados como processadores de símbolos) ou aleatórias. No primeiro caso, seguem sempre um programa previamente determinado; elas não podem auto-determinar sua próxima instrução, estão condenadas a seguir o programa inexoravelmente. No segundo caso, o resultado é imprevisível, sendo que em alguns casos ele pertence a um conjunto finito de resultados ou estado possíveis (quando a máquina é digital).

Em quinto lugar, qualquer visão de mundo estritamente materialista cava um fosso intransponível em relação à história da humanidade e aos nossos antepassados longínquos, o que me desagrada sobremaneira. Como muito bem retratam os mitos do primeiro capítulo do livro de Gleiser, a cosmogonia e a visão de mundo antiga eram essencialmente baseadas numa visão espiritualista, isto é, não-física, do mundo. Com uma visão espiritualista moderna e transmitida por conceitos para nossa compreensão, podemos entender nossos antepassados, sua maneira de ser, sua visão de mundo e seu comportamento. A história do ponto de vista materialista é absolutamente aleijada e insatisfatória, deixando-nos soltos no ar, sem ligação com ela.

Mas não há só o fosso com relação ao nosso passado histórico, há também o fosso que separa, da moral, qualquer julgamento estritamente baseado na ciência moderna. De fato, da matéria ou da animalidade não se pode derivar impulsos morais, que considero absolutamente essenciais para o desenvolvimento humano individual e social.

Em sexto lugar, devo deixar bem claro que admiro profundamente a evolução do pensamento e das conquistas materiais da ciência clássica e da sua filha predileta, a técnica (ou tecnologia, para usar o anglicismo em voga). Parece-me que a evolução que ela causou no pensamento e na visão de mundo foi essencial para o ser humano moderno adquirir a consciência e a liberdade que ele tem hoje em dia. Por outro lado, só posso estar profundamente agradecido à tecnologia; por exemplo, foi graças a ela que uma de minhas artérias coronarianas principais, que em 1993 estava entupida em 90% e me levou a um enfarto, pôde ser "desentupida", com duas angioplastias, tornando-me uma pessoa normal pelo menos quanto a esse aspecto. Além disso, enxergo bem pois os meus dois cristalinos cataratados foram substituídos por lentes de plástico, uma técnica que tem menos de 20 anos. Mas não é por isso tudo que deixo de reconhecer que chegamos a um momento em que os paradigmas da ciência materialista devem ser ampliados, para abranger também a pesquisa do não-físico e de suas manifestações.

Finalmente, em sétimo lugar, devo confessar que, apesar de enunciar muitas idéias próprias, encontro minha inspiração na Antroposofia de Rudolf Steiner, que ele desenvolveu no primeiro quarto do século XX (veja-se, por exemplo, http://www.sab.org.br). Foi nela que encontrei um edifício conceitual moderno que abrangesse o não-físico, tirando-me do poço do materialismo, sem que eu precisasse cair em crenças, fé, dogmas ou obscurantismo, que não combinariam com minhas tendências científicas. Senti-me atraído também por uma visão de mundo que não fica só na filosofia, mas chega à prática, como o demonstram suas educação ("Pedagogia Waldorf"), educação especial ("Pedagogia Curativa"), medicina, farmacêutica, agricultura ("Biodinâmica"), arquitetura ("Orgânica"), organização social ("Trimembração do Organismo Social" e "Pedagogia Social"), novas artes (como a "Euritmia"), ciência qualitativa (com vários resultados práticos, como o "Método da Gota" de Theodor Schwenk, descrito por exemplo em Bewegungsformen des Wassers/Formes de L’eau en Mouvement, ed. bilíngüe, Stuttgart: Freies Geistesleben, 1967/Paris: Triades, 1968 e em Sensitive Chaos - The Creation of Flowing Forms in Water and Air, Hudson: Anthroposophic Press), etc.

Mas já escrevi demais sobre algumas de minhas idéias e posições. Vamos finalmente aos comentários sobre o livro de Gleiser. Obviamente, vou comentar apenas alguns trechos, dentre aqueles que me motivaram a escrever anotações durante a leitura. Usarei aqui a seguinte técnica: transcreverei vários trechos do livro, da edição citada acima, colocando-os entre colchetes, seguindo cada um com meus comentários. Quando Gleiser refere-se a algum autor, ele vai entre chaves.

Comentários sobre o livro


[Pg. 20. Na esperança de que catástrofes naturais tais como vulcões, tempestades ou furacões não destruíssem suas casas e plantações, ..., várias culturas atribuíram aspectos divinos à Natureza.]

Essa é uma típica interpretação, muito em voga desde há tempos, de que a divindade foi inventada devido ao medo. Só que há uma outra interpretação possível: existem seres que não têm corpos físicos (e portanto poderiam ser considerados como "divinos"), e a humanidade tinha a percepção direta deles em tempos muito remotos. Nessa época, a percepção sensorial física era ainda incipiente - daí a vivência, na remota Índia pré-histórica, de que o mundo físico era "maia", uma ilusão, isto é, a percepção do mundo não-físico era mais clara. Os seres humanos foram se materializando cada vez mais, ganhando maior percepção sensorial, capacidade de raciocinar e perdendo a percepção dos mundos não-físicos. Quando essa perda já era generalizada na população, durante ainda muito tempo continuou cultivada nos chamados "Centros de Mistérios" pelos "iniciados", pessoas que se submetiam a um treinamento e aperfeiçoamento interiores intensos antes de poderem chegar àquela percepção. Esse treinamento era necessário pois o primeiro encontro supra-sensorial dava-se com a própria essência não-física do discípulo, onde se encontravam todas as suas aberrações anímicas, como egoísmo, soberba, orgulho, cobiça, etc. Nessa época, havia um consenso de que sem esse treinamento, aquela percepção podia ser muito prejudicial à pessoa e à sociedade, de modo que ele e as próprias percepções dos iniciados eram guardados em segredo, e abertos somente a poucos escolhidos, daí seu nome. Mistérios famosos foram, por exemplo, os de Eleusis e de Éfeso (este, queimado e destruído na noite em que nasceu Alexandre Magno), mas havia-os em muitas regiões do mundo, entre os druídas, os egípcios, na Pérsia, etc. Entre vários desses iniciados podemos citar com segurança Pitágoras e Platão, como claramente transparece até pelas citações do livro de Gleiser (em Platão, especialmente no diálogo "Timaios"). Mas certamente Aristóteles não foi um deles, como muito bem mostra sua lógica "terrena". Com a perda gradativa dessa percepção supra-sensorial, muitos povos ficaram apenas nas tradições, em remotas lembranças daquelas épocas, ou em mitos que foram transmitidos muitas vezes pelos iniciados nos Mistérios. Tanto essas lembranças como os mitos sempre consistem de imagens, de parábolas, pois até a época da filosofia e da ciência gregas não havia a possibilidade de se formular os pensamentos em conceitos. Creio que o primeiro que formulou uma parábola e a explicou conceitualmente foi o Cristo (ver a Parábola do Semeador, p.ex. Mat. 13:10), e isso somente para seus discípulos pois, como ele disse, "a vós é dado conhecer", isto é, podiam compreender conceitos, devido ao desenvolvimento que ele lhes proporcionara, o que não acontecia com o resto da população. Hoje em dia toda a humanidade evoluída pode e deve exprimir parcialmente seu conhecimento em conceitos (outras formas de expressão são a arte e o relacionamento social). Podemos conceituar os mitos e as parábolas, entendendo o que significavam, mas para isso temos que desenvolver ou adotar uma conceituação do não-físico. Mais sobre os mitos no item referente à pg. 396.

Enfim, pode-se admitir como hipótese que a atribuição de "aspectos divinos à natureza" não fosse uma invenção devida a superstições, e sim a uma visão supra-sensorial direta - se bem que em tempos mais recentes, quando essa visão desapareceu (uma necessidade da evolução da humanidade), obviamente superstições substituíram tradições remotas. Mas essa hipótese obviamente requer a hipótese anterior de que existem processos não-físicos. No livro de Gleiser, transparece um respeito pelas religiões, e também a hipótese de que a Criação poderia ter sido um ato divino. No entanto, parece-me que a posição dele, comum entre muitos cientistas, é de que, após a Criação, a divindade não mais atua (se é que ela continua a existir...). De qualquer modo, esses nossos antepassados foram certamente muito sábios, pois aqui estamos nós. A nossa sabedoria atual, baseada na ciência corrente, colocou a humanidade em perigo, não só o nuclear como apontado por Gleiser (calcula-se que hoje ainda existe 30% de chance de um holocausto nuclear), mas também com relação à poluição e novas doenças fisiológicas e psicológicas.

[Pg. 22. Se assumirmos que "algo" criou "tudo", caímos em uma regressão infinita: quem criou o algo que criou o tudo? Como podemos entender o que existia antes de "tudo" existir? Se dissermos que "nada" existia antes de "tudo", estamos assumindo a existência de "nada", o que implicitamente assume a existência de um "tudo" que lhe é contrário.]

Parece-me que o aparecimento da matéria física não tem sentido do ponto de vista puramente material (aí incluindo-se a energia física). Aliás, esse deveria ser talvez o ponto de partida principal para se assumir a hipótese espiritualista de que devem haver processos não-físicos. Obviamente, a hipótese mais comum hoje, a do "Big-Bang", requer a criação da massa ou da energia original. Note-se que o "modelo do estado padrão", exposto inicialmente na pg. 369, e que evita o "Big-Bang", assume uma criação ínfima ("três átomos de hidrogênio por metro cúbico a cada milhão de anos"), mas que continua sendo criação, como os autores reconhecem (fim da pg. 370).

Mas o importante aqui é que Gleiser está sempre pensando materialmente. Para ele, o "tudo" criado é material. Para mim, faz muito mais sentido admitir que a criação inicial não foi material, e sim de "algo" não físico. A matéria física seria uma condensação, ocorrida gradualmente, da "substância" não-física - o que transparece no estudo dos átomos e das "partículas" atômicas, como discorrerei mais adiante, lançando um pouco de luz sobre como o não físico pode atuar no físico e transformar-se neste.

[Pg. 56. {Sobre as concepções pitagóricas.} Ao girar em torno da Terra em suas órbitas, o Sol e os planetas gerariam uma melodia cósmica, o sistema solar se transformando em um gigantesco instrumento que ressonaria a música divina, a harmonia das esferas celestes.]

Exato, a "Música das Esferas" era considerada como um "som" divino, isto é, não físico. A sensação dessa percepção supra-sensorial era análoga à que temos quando ouvimos tons físicos. Portanto, ela não tem nada a ver diretamente com o sistema planetário físico! A propósito, é interessante notar que, dado o conhecimento científico que se tem hoje, pode-se fazer perfeitamente a hipótese de que as sensações que sentimos não são físicas. Não confundi-las com a percepção sensorial. Afinal, por exemplo, a imagem se forma invertida na retina, no efeito de "câmera escura". Mas já no nervo óptico não se encontra mais a imagem, e sim ruído sendo transmitido. Chegam impulsos elétricos aparentemente aleatórios ao cérebro. Como aí se forma a representação mental ("Vorstellung") e depois a sensação da imagem? Não adianta apontar para áreas do cérebro que estão mais ativas nesse processo do que outras áreas, como revelado por tomografias e ressonância magnética: isso não diz absolutamente nada sobre a origem das sensações (quanto mais sentimentos, pensamentos e impulsos de vontade…).

[Pg. 192. No universo infinito de Newton, a razão era a única ponte possível até o Divino.]
Quanto à razão ou, mais amplamente, o pensamento ser a ponte correta para os conceitos e o mundo platônico (real) das idéias, onde estão as essências das coisas, estou totalmente de acordo. Ver as considerações sobre a pg. 193.
É muito interessante notar como Newton e Descartes claramente acreditavam ainda na existência da divindade, e tentavam revelar com sua ciência verdades sobre a sua atuação. Isso absolutamente não impediu que atuassem como cientistas. Em algum ponto, abandonou-se totalmente a hipótese de que existem processos não-físicos no universo (físico e não-físico), deixando a ciência de tentar revelar uma "verdade divina". Mas vejamos o que vem em seguida.
[Pg. 193. Será que essa separação entre ciência e religião é realmente necessária? Sem dúvida. Ela serve como proteção ao subjetivismo na prática científica, garantindo que a ciência continuará a ser uma linguagem universal numa comunidade extremamente diversificada. O discurso científico é, e deve ser, livre de qualquer conotação teológica. Invocar religião para cobrir falhas do nosso conhecimento é, a meu ver, uma atitude anticientífica ... Em outras palavras, não é o "Deus tapa-buracos", invocando toda vez que atingimos os limites das explicações científicas, que faz com que a religião tenha um papel dentro do contexto científico. Se queremos encontrar uma lugar para a religião na ciência moderna, devemos examinar as motivações subjetivas de cada cientista, e não o produto final de suas pesquisas.]

Aqui Gleiser revela um desconhecimento de correntes que abordam o não-físico de uma maneira não-religiosa. Uma busca com algum esforço a partir de meu "site" poderá levar a um artigo em que mostro como se pode conceituar o não físico na constituição humana sem apelar para dogmas ou fé religiosos, e sem subjetivismos. Não se trata absolutamente de tapar buracos, e muito menos com uma noção perdida do que vem a ser "Deus". Essa palavra não será encontrada em meus argumentos, pois não há compreensão clara sobre o que ela significa, e eu teria que discorrer muitíssimo até poder chegar a ela; por outro lado, como já disse, ela se refere em geral a uma pura abstração, sem realidade.

Como eu disse em minha introdução, trata-se de ampliar a pesquisa científica para campos absolutamente essenciais para uma compreensão de fenômenos que podemos observar até fisicamente. Conjeturo que, sem essa ampliação, jamais chegar-se-á a compreender a matéria (que, por sinal, não tem sentido do ponto de vista estritamente material, como muito bem mostra a ciência moderna - mais sobre isso nos comentários sobre a pg. 252 e seguintes), a vida, o crescimento e a regeneração nos seres vivos, o nosso sono, nossos sentimentos, pensamentos, vontade, memória (não há nenhuma máquina que se "esqueça" e depois espontaneamente se "lembre", sem que isso tudo esteja previamente programado) e auto-consciência. É absolutamente fundamental hoje em dia as pessoas conscientizarem-se de que o tipo de pesquisa que se faz na ciência tradicional é totalmente parcial, unilateral, por que não - preconceituoso, por ignorar, por que não - abominar, hipóteses e fenômenos não-físicos. Vou dar dois exemplos. Devido ao poço materialista em que se meteu a ciência moderna, desde Newton e Descartes (que considerava como parte de seu Método encarar os seres vivos como máquinas), parte-se hoje da hipótese que o pensamento é gerado pelos neurônios - e não se chega a quase nada. Uma outra hipótese, que levaria a pesquisas muito diferentes e mais amplas, é a de que o pensamento não é físico, e a atividade neuronal é conseqüência e não a causa do pensar. O cérebro físico talvez seja necessário para nos conscientizarmos do nosso pensamento, e portanto controlarmo-lo. Afinal, como mostrei na introdução, qualquer um pode ter a vivência de poder auto-determinar livremente seu próximo pensamento, o que não se pode atribuir a nenhuma máquina, abstrata ou concreta. Um outro exemplo é o papel do DNA nos seres vivos. A visão mecanicista está considerando, de maneira absolutamente indevida que, por exemplo, ele determina o comportamento do organismo. No entanto, como afirma Richard Lewontin em seu livro The Triple Helix – Gene, Organism and Environment (Cambridge: Harvard Univ. Press, 2000), já mesmo a forma dos organismos vivos depende não só do DNA, mas do ambiente interior e exterior, e de um "noisy development", absolutamente imprevisível. Poder-se-ia formular a hipótese de que a forma dos seres vivos, como por exemplo a das folhas de uma espécie de planta, a de nossas orelhas com sua simetria, etc., segue um modelo não-físico. Isso se justifica, pois modelos não existem fisicamente, sendo puros pensamentos, no mundo platônico das idéias. Esse mundo não está em nossa mente, mas podemos captá-lo, "observá-lo" por meio de nossos pensamentos (como na frase acima, da pg. 192). É esse modelo, essa idéia que, parece-me, atua não-fisicamente na decisão de uma célula ser usada na diferenciação dos tecidos, ou na mitose (subdivisão, necessária para o crescimento ou para a regeneração, precedida pela replicação do DNA) ou na apoptose (morte da célula). Note-se que na tomada de decisão não é necessário gastar energia, o que pode resolver o problema da atuação do não-físico no físico na construção e manutenção das formas orgânicas. A admissão desses fatos abriria um enorme campo de pesquisa científica, sem subjetivismos como os temidos por Gleiser. Com essa abertura, poder-se-ia talvez concluir cientificamente que o "noisy development" é na verdade orientado por aquilo que Goethe denominou de "tipo", um constituinte não-físico dos organismos vivos, necessário para se compreender os processos dos mesmos. Note-se que houve tentativas de se introduzir novos processos que pudessem explicar as formas orgânicas e outros comportamentos dos seres vivos, como o Campo Morfogenético de Rupert Sheldrake (A New Science of Life - the Hypothesis of Formative Causation, Los Angeles: Jeremy P.Tarcher, Inc., 1981). Mas ele não pôde ir muito longe pois continuou no fundo do poço do materialismo: seu campo é puramente físico e uma pura elocubração mental (daí ter sido tão criticado).

Um exemplo muito interessante da ampliação da pesquisa científica foi dado pelo matemático inglês Lawrence Edwards. Ele investigou matematicamente as formas dos brotos de plantas (por exemplo, os botões de rosas), descobrindo que cada espécie tinha parâmetros próprios, se não me falha a memória usando Geometria Projetiva. Mas não foi aí que ele saiu do que eu denominei de "poço do materialismo" na introdução acima, e sim na descoberta que esses parâmetros variavam em certos períodos do tempo, tendo-os correlacionado com uma influência surpreendente que não vou citar aqui pois iria talvez irritar o "preconceito científico" de muitos leitores. Infelizmente eu tinha um de seus livros em inglês, mas está emprestado, de modo que não posso dar a referência neste momento; veja-se também Geometrie des Lebendigen ("Geometria do Vivente", Stuttgart: Freies Geistesleben, 1986).

Em todo seu livro, Gleiser não fala do reducionismo no método científico atual, e os problemas que ele causa. Justamente o reducionismo inaugurado com Newton: em seu Opticks, mencionado por Gleiser algumas vezes, ele confessa (Prop. II, Theor. II, Exper. 3) que a abertura no "Shut of a Window" que usou em suas experiências era de "about one third Part of an Inch broad", isto é, um caso totalmente particular. Se a abertura tivesse sido um pouco maior, ele não teria obtido o verde; se fosse bem pequena, como todos pensam que foi, ele teria obtido as cores primárias usadas em todos os vídeos baseados em tubos de raios catódicos ("rgb" - red, green, blue) em lugar das 7 cores do arco-íris descritas em seu tratado. Isto é, teria concluído que a luz do Sol é composta de 3 cores! Infelizmente, do particular nunca se chega ao geral - quem sabe por isso não temos compreensão do que vem a ser a luz. Aliás, se Newton tivesse sido biólogo e não astrônomo, teria descoberto o espectro complementar, isto é, no limite, amarelo, magenta e azul, como nas impressoras coloridas (aí o dual é a tinta escura sobre o papel branco, ao contrário do feixe de luz sobre fundo escuro dos tubos de vídeo). Nesse caso, como descobriu Goethe, teria obtido a dispersão de feixes de escuro... A propósito, no método científico proposto por Goethe sempre se deve partir do geral para o particular; é interessante que a redução ao particular nunca leva ao geral, ao todo, pois este é perdido de vista logo de início. Foi esse o método que o levou, por exemplo, à descoberta do osso intermaxilar nos seres humanos.

Uma das tônicas do livro de Lewontin é a crítica ao reducionismo dos físicos, emprestado indevidamente pelos biólogos. Só que os primeiros lidam com a matéria inanimada, e não nos perturbam muito suas elocubrações teóricas sobre cosmogonia, nem as acelerações que eles produzem de "partículas" (em situações totalmente artificiais, não existentes na matéria) - a menos quando criam armas de nos matar ou radiações que nos prejudicam, ou tentam passar uma visão de mundo que é mera especulação. Os segundos estão lidando com seres vivos e conosco, impondo uma visão indevida do mundo e de nós mesmos, e tratando-nos como se fôssemos máquinas. Isso influencia, por exemplo, a medicina (um exemplo clássico de desastre desse método foi a Talidomida; preparem-se para os desastres das plantas transgênicas). Lewontin chama a atenção para o fato de que só se pode falar de uma "parte" se ela for parte de um "todo", e que nos seres vivos esse todo é uma unidade (o que já tinha sido afirmado por Goethe), não se podendo conhecer totalmente, como nas máquinas, a funcionalidade de cada parte. Infelizmente, os físicos não estão mostrando suficientemente os limites e falhas de seus métodos; pelo contrário, propagaram a idéia de que o que não se sabe hoje saber-se-á amanhã (a menos das conseqüências da incerteza...). Penso que eles deveriam trombetear: "Gente, com nossos métodos não conseguimos nem saber o que é um elétron ou a luz, será que vocês utilizando-o vão saber o que é um ser vivo?"
[Pg. 252. {Citando Einstein} "Bom senso é o conjunto de todos os preconceitos que adquirimos durante os primeiros 18 anos de vida." ... No entanto, as coisas não são assim com a física moderna. À primeira vista, fenômenos relativísticos ou quânticos parecem bizarros porque estão muito além de nossa realidade imediata, inacessíveis aos nossos sentidos; eles não fazem parte dos fenômenos abarcados pelo nosso "bom senso".]

Exato, a menos dos "preconceitos". Será que o fato de não fazerem parte dos fenômenos perceptíveis pelos sentidos não poderia ser uma indicação de que há algo não-físico atuando? Justamente o nível atômico e sub-atômico talvez constituam o limite entre o físico e o não físico. Explicações baseadas em nossa experiência sensória não devem aplicar-se ao não físico, ou ao citado limite. É interessante que Gleiser não cita o fenômeno do "spin", que foi introduzido por Schrödinger para que sua equação funcionasse, mas que não tem limite clássico e portanto não pode ser compreendido "sensorialmente" (não é uma rotação, a começar pelo fato do elétron não ser uma bolinha, como bem enfatiza Gleiser). Dentro do método adotado pela Física, foi necessário usar conceitos "bizarros" sem possibilidade de compreensão sensorial, como "onda de probabilidade" e "spin", e a dualidade (complementaridade) onda-partícula, que se tornaram puras abstrações mentais fabricadas. Será que isso não seria suficiente para mostrar que o método científico usado tem algo de profundamente errado? Quem sabe está se aplicando indevidamente uma visão de mundo - a materialista -, e uma técnica - a modelagem matemática -, onde elas não cabem?

É interessante reconhecer que conceitos matemáticos - equações, por exemplo, não são descrições físicas. De certo modo, a mecânica quântica desfez a materialidade da matéria, exprimindo-a sob formas abstratas sem possibilidade de compreensão. Quem sabe isso é devido ao fato de que a matéria no nível atômico e sub-atômico está no limite do material, e não pode ser descrita por expressões ligadas aos meios materiais (com significado através de compreensão baseada nos nossos sentidos). Isso nos leva ao próximo ponto.

[Pg. 299. {Citando Heinsenberg} "Gostaríamos de poder falar sobre a estrutura dos átomos, mas nós não podemos falar sobre átomos usando uma linguagem ordinária."]

Nossa linguagem atual é baseada na percepção sensorial e ainda nos sentimentos pessoais (que são sentidos pessoalmente, mas que têm um caráter universal - amor, ódio, simpatia e antipatia). Será que isso não mostra que precisamos começar a falar sobre o não-sensório e pesquisá-lo sem perder a objetividade e exprimindo-nos através de conceitos, para a compreensão buscada por todas as pessoas que são "evoluídas"?

Em lugar de desenvolver uma linguagem - conceitos - para descrever o não físico, descambou-se para a linguagem puramente matemática. Mais sobre isso no comentário sobre a página 328.

[Pg. 300. {Citando Feynman} "Coisas em escalas muito pequenas comportam-se de modo completamente diferente de tudo aquilo de que você tem experiência direta no seu dia-a-dia. Elas não se comportam como ondas, elas não se comportam como partículas, elas não se comportam como nuvens ou bolas de bilhar, ou pesos ligados a molas, ou a qualquer outra coisa que você tenha visto em sua vida."]

Todas essas noções provêm de nossos sentidos físicos. Mas nossos sentidos físicos não são adequados para a observação ou a descrição dos processos não-físicos, ou os limítrofes entre o físico e o não-físico. Parece-me que somente com uma conceituação do não-físico poder-se-á chegar à compreensão do que vem a ser o átomo e portanto a matéria.
[Pg. 306. Bohr elaborou sua posição no princípio de complementaridade, que afirma que onda e partícula são duas versões igualmente possíveis e complementares, embora mutuamente incompatíveis, de como objetos quânticos (como elétrons ou átomos) irão se revelar a um observador. Onda e partícula são duas formas complementares de existência, que se manifestam apenas após o objeto quântico ter entrado em contato com o observador. Antes desse contato, o objeto quântico não é nem partícula nem onda. De fato, antes do contato, não podemos nem mesmo dizer se o objeto existe ou não. Esses 2 princípios, de incerteza e de complementaridade, formam a chamada "Interpretação de Copenhage da mecânica quântica", desenvolvida principalmente por Bohr.]

Será que o contato é com o "observador"? Parece-me que é "com a matéria". Por exemplo, a luz não é visível; ela só se torna visível quando interage com algo material, apresentando-se então sob forma de cor (cf. a Teoria das Cores de Goethe). Dependendo de sua interação com a matéria, o resultado da interação, e não a luz propriamente dita, comporta-se de uma ou outra forma. Nesse sentido, a luz não é uma onda eletromagnética; comporta-se como onda ao passar por 2 orifícios, produzindo o fenômeno de interferência, de onde se pode calcular o comprimento de onda. Mas se em lugar de 2 orifícios colocarem-se 2 pequenos obstáculos, ter-se-á interferência do mesmo modo, mas no espectro complementar. Como conciliar esses conceitos com a deflexão da luz passando próxima do Sol? O Sol é matéria, de modo que a luz está sendo influenciada pela mesma. É interessante notar que, hoje em dia, empregam-se instrumentos em toda a pesquisa científica. Ora, a luz ou as "partículas" interagem com a matéria do instrumento antes de interagir com o observador. Aliás, o uso exagerado de instrumentos separa o observador do objeto, tornando-se uma das causas da desumanização da ciência. É interessante notar ainda que os instrumentos sempre funcionam dentro de uma certa teoria, de modo que em geral por meio deles não se pode comprovar que ela é incoerente ou deveria ser estendida. É o caso dos instrumentos que usam a teoria das cores de Newton.

Está na hora de eu sintetizar aqui algo de minha posição com relação à matéria. Como discorri nos comentários às últimas citações, a mecânica quântica teve que apelar para conceitos que não têm nada a ver com nossas percepções sensoriais. Certos elementos foram introduzidos artificialmente nas equações matemáticas para que elas modelassem adequadamente os resultados experimentais - ou mesmo fizessem a teoria adequar-se a uma visão de mundo, como foi o caso da Constante Cosmológica de Einstein (pg. 339). Tudo isso me leva à conclusão lógica de que no nível atômico e sub-atômico se está na fronteira do não-físico, e portanto os conceitos baseados nos sentidos simplesmente não podem ser aplicados. Isso por eu considerar o mundo não-físico como sendo essencialmente distinto do físico. Mas aí caímos no famoso paradoxo: como o não-físico pode atuar no físico? Somente algo físico pode atuar no mundo físico, pois qualquer energia ou força que atue no físico deve ser física. Já mostrei uma de minhas idéias de atuação do físico no não-físico: a decisão que ocorre no nível celular de uma célula permanecer na diferenciação do tecido vivo, de ela submeter-se à mitose ou à apoptose (ver comentário sobre a pg. 193). Com isso, por exemplo, o modelo, a idéia não-física da forma de uma folha própria de uma espécie pode atuar no físico, levando essa folha a continuamente adaptar-se a essa forma. Uma decisão não precisa de energia, pois se passa no mundo platônico das idéias. Atenção, essa interação depende obviamente da base física da planta e do meio ambiente, daí por exemplo uma alteração no DNA poder levar a uma outra forma. E quanto ao nosso pensamento, que não envolve esses processos celulares, e à matéria não-viva?

Parece-me que a questão da "decisão" também pode ser a chave para um entendimento sobre essas questões. Suponhamos que existam no nível atômico e sub-atômico vários estados dos átomos e das "partículas" que representem equilíbrios instáveis (como por exemplo de um lápis colocado milagrosamente em pé sobre sua ponta de grafite). A passagem de um estado de equilíbrio instável para um outro estado (no caso, a queda do lápis em uma das infinitas direções possíveis) requer um infinitésimo de energia ou, no limite, nenhuma! Esse seria o caso de circuitos como "flip-flops" em equilíbrio instável; só que não me agrada a visão digital nos seres vivos; quem sabe trata-se de "flip-flops" analógicos, com um número infinito de estados... Note-se que a mecânica quântica "digitalizou" o átomo, mas ela é apenas um possível modelo matemático abstrato. E por falar nisso, além de não ter falado sobre o "spin", Gleiser não citou o "princípio de exclusão" de Pauli: duas partículas de um mesmo átomo não podem ter todos os seus números quânticos iguais. Não existe nenhuma justificativa para esse princípio, o que me parece muito estranho.

Uma outra possibilidade é a do não-determinismo: suponhamos que uma corrente elétrica possa passar de um local de um organismo vivo para outro, mas há vários caminhos (circuitos) possíveis. A decisão de qual caminho vai ser tomado também não requer energia, e pode ser mais uma fonte da atuação, por exemplo, de nosso pensamento, sentimento ou vontade não-físicos, na matéria física. Os físicos e eletrotécnicos estão acostumados a raciocinar deterministicamente nesse caso, sempre concluindo que a corrente se dividirá entre os vários circuitos em função das impedâncias (resistências) de cada um, segundo as leis de Kirchoff. Mas quem sabe essas impedâncias dependem dos equilíbrios instáveis que já citei, o que resolveria o problema. Vou citar aqui um exemplo banal, mas ilustrativo. Suponhamos que alguém, em uma situação vexaminosa, ruborize. O que provocou a ruborização? Em última instância, uma dilatação nos vasos sangüíneos. Mas o que provocou essa dilatação? Algum hormônio, que foi solto por alguma glândula. Mas o que, ou quem ativou essa glândula? Se continuarmos nesse trem de pensamentos, necessariamente chegaremos a algo não-físico: a pessoa sentiu-se moralmente envergonhada. De algum modo, esse sentimento, que me parece claramente não-físico, acabou dando uma reação física. O mesmo se passa, por exemplo, se tomamos uma decisão consciente de mover um dedo.

[Pgs. 328-329. {Einstein} sabia que sua intuição estava correta; o problema era achar a formulação matemática adequada para suas idéias. Os físicos que usam principalmente sua intuição em sua pesquisa podem identificar-se com essa situação, muitas vezes frustrante, quando suas idéias estão muito à frente de sua matemática. ... Representar idéias em equações não é nada fácil, mas nenhuma alternativa é viável. Se você não for capaz de formular sua teoria matematicamente, é provável que ninguém a leve a sério. Idéias são muito mais difíceis de serem compreendidas do que a matemática.]

Aqui vejo um dos maiores problemas da ciência desde Galileu, Newton e Descartes. Tudo deve ser apresentado matematicamente. Acontece que por meio da Matemática tem-se uma visão exclusivamente quantitativa do mundo. Tudo o que é qualidade, ou que não é expresso quantitativamente, deixa de ser objeto da ciência (como aliás afirmou Lord Kelvin em citação que perdi). Aliás, Descartes já afirmara que só o mensurável era claramente compreensível, todo o resto – "a luz, as cores, os sons, os odores, gosto, calor, frio..." sendo nebuloso; de modo que ele não podia saber ser eram "verdadeiros ou falsos", o que levou John Locke a considerar os primeiros como "qualidades primárias" e os segundos como "secundárias". Galileu fez uma analogia do subjetivo do gosto, odor, cor, etc. com as cócegas que sentia no pé ao este ser tocado, e que eram sentidas apenas por ele. Sei que muitos cientistas responderão aqui que tudo no mundo é quantificado. Infelizmente, isso é uma fé sem fundamento científico. Certamente nosso cérebro não funciona quantitativamente - pelo menos, não digitalmente, pois que máquina digital é essa sem sincronismo de sinais (por um gerador de pulsos, denominado comumente de "relógio" da máquina) e, como já citei, com a capacidade de escolher livremente seu próximo pensamento? Nossa vivência diária não é quantitativa, desde ao vermos, por exemplo, certas cores diferentes e logo associarmos a nossa representação mental ("Vorstellung") correspondente com o conceito "árvore". Podemos eventualmente passar ainda ao conceito "Araucária" (uma belíssima posso ver neste momento na encosta do morro em frente, a uns 500m, com a típica copa em forma de elipsóide, padrão comum nessa espécie, contra o céu azul profundo de nossos 1700m de altitude - como explicar materialmente o crescimento dos galhos de 1 a 5m, com os tufos da "angustifolia" apenas na sua ponta mantendo essa forma primordial? Ou o dos pinheiros, mantendo a forma triangular ou de pinha?). Nem o conceito de "porta", que associo neste momento a certas cores e formas que vejo ao meu lado, dá-me a sensação de que há algo quantitativo envolvido. Pelo contrário, a possibilidade de entrar em contato por meio de meu pensamento com esses conceitos (árvore, Araucária, porta), mostra-me que ele me permite atingir objetivamente o mundo platônico das idéias, que claramente não está em minha mente, pois se Gleiser estivesse aqui comigo (que interessantes discussões não teríamos...), alcançaria com seus pensamentos exatamente os mesmos conceitos qualitativos! Vê-se que nesse sentido sou francamente contra Kant que, parece-me, continua influenciando o método científico até hoje, com sua idéia de que nossas percepções são sempre subjetivas e que o pensamento é incapaz de atingir a essência das coisas observadas. Justamente com nosso pensamento, somos capazes de captar a essência da Araucária ou da porta (que não observamos com nossos sentidos), tanto que as reconhecemos!

Gleiser cita os quatro elementos dos antigos gregos: terra, água, ar e fogo (nessa ordem, não na que ele coloca (pg. 74). Pois para os gregos, esses termos expressavam qualidades comuns a todos os sólidos, a todos os líquidos (inclusive metais fundidos), etc. Eles associavam a essas qualidades essências não-físicas. Aliás, parece-me que não é possível deduzir dos modelos que se tem para os átomos de hidrogênio e de oxigênio que uma de suas combinações entre 0 e 100 graus Celcius dará moléculas de um líquido, mas posso estar enganado.

É interessante notar que durante muito tempo se fez ciência qualitativa, por exemplo na Sistemática da Botânica. Pior, ela era altamente artística, pois os botânicos mesmo depois do advento da fotografia reconheciam que um desenho feito à mão pode salientar aspectos que uma fotografia maquinal não pode. O darwinismo foi essencialmente qualitativo. Mas infelizmente esses exemplos da Biologia estão desaparecendo, pois a estrutura do DNA é essencialmente matemática (na verdade, lógico-simbólica). Aliás, meu combate atual contra as afirmações indevidas em torno do DNA (dele definir a vida, determinar o comportamento do organismo, etc.) deve-se em parte à potência científica que elas têm, pois contrariamente à teoria da evolução, que sempre foi altamente especulativa, o DNA tem uma "base científica" moderna muito mais poderosa, pois é determinado por instrumentos (que incluem o convincente computador) e por um modelo essencialmente matemático. Por outro lado, preciso combater aquelas afirmações pois o darwinismo tentou passar uma imagem de que o ser humano é um animal: na pg. 247, Gleiser afirma que devido ao darwinismo, houve uma condenação dos "humanos a serem descendentes diretos dos macacos", o que é absolutamente indevido frente ao conhecimento científico de hoje; é impossível imaginar-se mutações dos macacos atuais chegando a nós. (Assim, podemos supor que houve algum ancestral não-macaco comum, que poderia muito bem ser o próprio ser humano - basta exagerarmos nossa constituição física em alguns pontos para obtermos qualquer animal; aliás, nos primeiros estados embrionários não há distinção entre nós e os animais, a ponto do grande Haeckel ter uma vez deixado de rotular vidros com embriões de vários animais e depois não conseguir classificá-los.) No entanto, por trás da pesquisa do DNA existe uma concepção muito pior, a de que o ser humano é uma máquina. O terrível disso é que se pode ter uma ética em relação aos animais, pois eles sofrem; daí existirem "sociedades protetoras dos animais", Brigittes Bardots, etc. Mas não há sentido em se falar em ética em relação às máquinas. Não estou me referindo à ética no uso das máquinas, e sim, por exemplo, no dó de desligar ou não dar manutenção a uma delas. Seria interessante Gleiser meditar no fato de que os nazistas, que ele cita com horror de vez em quando, terem tratado os seres humanos como animais, transportando-os em vagões de gado, enjaulando-os em campos de concentração, fazendo sabão de seus cadáveres, etc. (provavelmente, como eu, ele teve familiares que foram tratados por eles assim, nas gerações tão próximas quanto as de nossos avôs e bisavôs). Mas a concepção de que o ser humano é uma máquina vai levar a atitudes desumanas muitíssimo piores. Quero deixar aqui bem claro que uma educação científica materialista, como a que se faz hoje em dia no ensino médio (antigo "2o. grau"), cria essa mentalidade de que o ser humano é uma máquina. Atenção, sou da opinião de que o darwinismo deve ser ensinado, mas apenas no nível médio, e como teoria que é (e "furada": os elos perdidos), e não como verdade como é ensinado. Da mesma maneira, a teoria das cores de Newton deveria ser ensinada como um possível modelo para a luz, e não como verdade, como escreveu Tolger Hotsmark (Newton’s Experimentum Crucis Reconsidered, American Journal of Physics, Vol. 38, No. 10, Oct. 1970, pp. 1229-1235): "Newton pensou que ele explicou a existência do espectro por meio de um modelo físico da luz, ao passo que ele de fato usou a imagem do espectro para explicar um possível modelo físico da luz" (minha tradução e grifo). O mesmo para a atomística e cosmogonia modernas, etc. Mas qual professor de Física do ensino médio ensina a seus alunos que a teoria das cores de Newton é uma teoria e não uma verdade, que o elétron não gira em torno do núcleo (pois nesse caso, como bem aponta Gleiser, perderia energia por irradiação eletromagnética) e não é uma "bolinha", mas que esses são modelos simplesmente convenientes para algumas aplicações? Ou um professor de Biologia que ensina a teoria da evolução como teoria e não como verdade?

Por falar nisso, em algum ponto Gleiser lamenta o fato de grupos religiosos terem conseguido passar leis nos EE.UU. de que o darwinismo não deveria ser ensinado, e sim o criacionismo bíblico. Eu também lamento, pois o currículo deveria ser livre, determinado pela comunidade dos professores de cada escola (como é o caso na Pedagogia Waldorf). Mas o que nem Gleiser e nem esses criacionistas percebem é que a criação segundo a Gêneses é uma imagem para realidades subjacentes. Como eu já afirmei, na época bíblica, e anteriormente, as pessoas não tinham seu pensamento desenvolvido como o temos hoje, e não havia a possibilidade de expressar conceitos como nós o fazemos. Ora, crianças pequenas vivem (ou deveriam viver) com imagens fantasiosas interiores (e não as exteriores da TV, por exemplo - vejam-se meus artigos a respeito). Portanto, as imagens da criação bíblica são absolutamente adequadas para crianças de 8 ou 9 anos de idade, e a teoria darwinista é absolutamente inadequada nessa idade. Pelo contrário, a teoria da evolução (atenção, como mera teoria, o que só pode ser compreendido por jovens com maturidade intelectual suficiente), é absolutamente adequada no nível médio, e o criacionismo bíblico absolutamente inadequado, pois o jovem quer compreender e não se satisfaz com imagens e parábolas. Entre parênteses, já tive a ocasião de participar de um congresso criacionista, e fiquei impressionado com o fundamentalismo de muitos participantes. Para começar, eles não só negam a seleção natural (que para mim existe, mas não é casual), mas tomam ao pé da letra as imagens da Gêneses, por exemplo considerando os dias da criação como tendo 24 horas (V. pg. 31)!

Voltando à modelagem matemática, parece-me que um de seus problemas é que ela tende a adquirir independência em relação aos fatos físicos. É o que ocorreu com o "spin" e com as várias teorias do universo inflacionário como as citadas por Alan H. Guth em The Inflationary Universe - The Quest for a New Theory of Cosmic Origins (Reading: Perseus, 1997), provavelmente não citado por Gleiser por ter sido escrito ao mesmo tempo que o seu livro. Guth mostra como as tentativas de solucionar o problema da origem da massa ou energia originais teorizando-se um universo "ex nihilo" foram feitas manipulando-se equações derivadas da Mecânica Quântica; aliás, é curioso ver-se a inflação de teorias inflacionárias! Apreciei muito sua dúvida: "Se a criação do universo pode ser descrita como um processo quântico, restar-nos-ia um profundo mistério da existência: o que é que determinou as leis da física?"

[Pg. 348. Você não tem que acreditar nos cientistas. Você tem que compreender suas idéias. Ciência não é um sistema de crenças, mas um sistema de conhecimento desenvolvido com o objetivo de organizar a realidade à nossa volta. ... você deve também duvidar de qualquer sacerdote que tente convencê-lo, baseado em argumentos religiosos, da futilidade da ciência moderna.]

Totalmente de acordo. Só que aparentemente Gleiser não sabe que se pode conceituar e pesquisar o não-físico, sem conotação religiosa e sem crenças como, por exemplo, o fez magistralmente Rudolf Steiner (que, aliás, teve formação científica na Escola Politécnica de Viena, e fez um doutorado em Filosofia). Assim, é possível compreender o não-físico, e ampliar enormemente a pesquisa científica, passando-se a ter uma ciência humana, e não desumana como a ciência atual. É possível resgatar cientificamente uma visão de mundo que devolva ao ser humano a sua dignidade, suprimida por concepções materialistas de que ele é um mero animal ou uma máquina. Mas para isso é necessário mudar os paradigmas materialistas da ciência atual, sem no entanto abdicar de seus princípios fundamentais, de transmissão de conceitos para a compreensão humana, de experimentação consciente, de objetividade, etc.

Talvez eu devesse discorrer brevemente sobre essa questão crucial de objetividade e dos outros paradigmas. É absolutamente essencial que se pesquise também o subjetivo. Eu vejo uma rosa, e sinto uma sensação absolutamente pessoal minha, diferente do que a sensação que Gleiser sentiria ao ver a mesma flor. É preciso fazer uma ciência que aborde também esse aspecto subjetivo, isto é, de cada um ter uma sensação própria, pois senão ela será desumana. Mas mesmo no subjetivo existem aspectos objetivos. Por exemplo, duvido que Gleiser não iria sentir admiração e prazer vendo uma linda rosa. Do mesmo modo que ele sentirá uma sensação de abertura ao ouvir uma terça maior (por exemplo, um acorde dó - mi), e de introspecção ouvindo uma terça menor (dó - mi bemol). Ou ficar irrequieto com a seqüência de sétima maior (dó - si), que pede a finalização na oitava (dó - dó). Ou ser chamado à ação por uma seqüência de sexta maior (dó - lá), usada nas antigas trompas de caça. Em todos os povos do mundo, a alegria é manifestada com sorrisos, e não com lágrimas. Isto é, existe algo de universal por detrás dos sentimentos individuais, assim como o existe por detrás dos temperamentos individuais das pessoas. Esses aspectos devem ser investigados objetivamente, apesar de sua fonte ser subjetiva.

Um outro aspecto do paradigma atual da ciência é a reprodutibilidade. Ora, com o ser humano nada é puramente reprodutível. O leitor que teve paciência de chegar até aqui não é o mesmo que era quando iniciou esta leitura! O ser humano incorpora todas as suas vivências, conscientes e inconscientes, e nessa incorporação vai se modificando, isto é, não é reprodutível. Para ser mais preciso, eu deveria chamá-lo de "devir", e não de "ser" humano, pois ele está em permanente transformação. Portanto, somente uma ciência desumana poderá exigir reprodutibilidade em tudo, inclusive na pesquisa do próprio ser humano. Ela é válida nos minerais.

Já critiquei o paradigma da modelagem matemática, que leva a uma necessária quantificação e o desprezo pelos aspectos qualitativos. Resta criticar o paradigma de falseabilidade (cf. Popper). Ora, esse paradigma exige uma formulação essencialmente lógica. Mas nem tudo, principalmente o qualitativo, pode ser formulado logicamente, principalmente em Lógica aristotélica. Entre parênteses, meu ex-colega Newton C.A. da Costa foi o matemático que mostrou que a Lógica não precisa ser clássica, tendo desenvolvido a Lógica Paraconsistente, onde por exemplo não vale o princípio do 3o. exluído (isto é, nem tudo deve ser exclusivamente verdadeiro ou falso, pode ser um "mais ou menos" fixo - não confundir com Lógica "Fuzzy", que é baseada em probabilidades). Por exemplo, ele demonstrou que somente numa Lógica clássica o teorema de Goedel era válido, sendo inválido em uma Paraconsistente. É o mesmo que se ter geometrias não-euclidianas, perfeitamente válidas, onde por exemplo a soma dos ângulos de um triângulo tem mais de 180 graus (V. pg. 333). Como se deve compreender a falseabilidade, se se usar uma Lógica Paraconsistente? Além disso, nem tudo pode ser formulado como teoria que pode ser simplesmente negada. Parece-me que justamente a pesquisa do qualitativo não pode ser sujeita a esse paradigma.

A modelagem matemática teve, no entanto, uma grande vantagem: abriu caminho para a concepção e o nascimento do que chamei acima a "filha predileta da ciência", a tecnologia, a grande motivação hoje em dia para a existência e o financiamento da primeira. Poucos cientistas de hoje procuram simplesmente o saber. Só que como se pode facilmente observar hoje, a tecnologia baseada no materialismo é mais destruidora do que construtora, pois é motivada por impulsos egoístas e de ambição. Infelizmente Adam Smith, o propositor da satisfação desses impulsos como forma de trazer felicidade e estabilidade sociais, estava errado: sua misteriosa "invisible hand" está cada vez mais invisível e inoperante, e a humanidade sofrendo (em geral) cada vez mais.

[Pg. 353. Vivemos num Universo povoado por um número gigantesco de galáxias, espalhadas pela vastidão do espaço cósmico. Nossa galáxia, a Via Láctea, é apenas uma entre bilhões de outras, sendo sua posição perfeitamente irrelevante. Nosso planeta não ocupa uma posição especial no sistema solar, nosso Sol não ocupa uma posição especial no Universo. O que temos de especial é a habilidade de nos maravilharmos com a beleza do cosmo.]

Infelizmente há um erro profundo nesse trecho: se nosso planeta não ocupasse a posição que ocupa, não estaríamos aqui. Mas não é isso que me incomoda. Aqui Gleiser adota um dos paradigmas da ciência atual: a profunda crença no acaso. O Universo é um acaso, o sistema solar é um acaso, a Terra é um acaso, e a humanidade é fruto do acaso. Pior, cada um de nós é fruto do acaso - o que retira toda a possibilidade da vida humana ter um sentido e um objetivo, da Terra ter um sentido, do sistema solar ter um sentido, e do Universo também. Que pobre visão! Uma visão que deveria levar, se a pessoa fosse consistente, a um existencialismo sartriano, uma vontade de satisfazer seus instintos e desejos a qualquer momento, de simplesmente gozar a vida. Seria o desaparecimento de qualquer atitude proveniente de amor altruísta. Obviamente não concordo com a posição de Richard Dawkins, em O Gene Egoísta (Lisboa: Gradiva, 1989) - aliás, não tenho muitos problemas em admitir o caráter egoísta dos genes, apesar de achar que para isso eles deveriam ter consciência. O que não posso admitir - e a ciência não pode provar - é que somos determinados exclusivamente pelos nossos genes. Como disse Andrew Simpson, o coordenador do Projeto Genoma do Estado de São Paulo, em palestra no Instituto de Física da USP em 25/5/00, respondendo a pergunta minha, "A diferença entre eu e o Pelé está em nossos genes." Ora, pois! Coloquem-se os genes de Pelé num americano, há 60 anos atrás, para ver se ia dar um futebolista do porte de Pelé, e os genes de Simpson em Pelé nessa época em Santos, em seu ambiente familiar, para ver se ia dar um biólogo de prestígio! Aliás, sua primeira transparência nessa palestra continha a frase "Life Defined". Vejam-se os desatinos que se está falando em torno do DNA. É muito importante reconhecer que esses desatinos são fruto de uma mentalidade científica que deve mudar, pois destruiu qualquer possibilidade de se ter uma imagem digna do ser humano. Quero dizer, deve mudar para aqueles como Gleiser, do que aparentemente transparece em seu livro, que buscam essa dignidade. Só que não percebem que devem mudar seus paradigmas científicos, pois os atuais não podem de modo algum levar à liberdade e à dignidade humanas. Nem liberdade e nem dignidade podem ser deduzidas da matéria e de processos puramente materiais.

Não, Gleiser, pode ser que nós humanos sejamos os únicos seres com manifestação física auto-conscientes, com individualidade e com liberdade em todo o universo Aliás, é uma pena que os insucessos da SETI - "search for extraterrestrial intelligence" - sempre serão acompanhados de desculpas científicas padrões como "nossos instrumentos ainda não são adequados", "estamos apontando nossos radiotelescópios para o lugar errado", etc. Depois de ter acabado de escrever este artigo, recebi a Scientific American Vol. 293, No. 1, July 2000, onde há 2 artigos sobre SETI. O primeiro, de Ian Crawford (pp. 29-33), mostra que já foi concluída uma boa parte da busca, e não se achou nada. Além disso, ele discorre sobre o fato de que, considerando a idade da nossa galáxia, alguma civilização já devia ter se espalhado por toda ela, citando o "Paradoxo de Fermi", que eu desconhecia: por que seus representantes não estão aqui? Meus alunos vão reconhecer uma argumentação lógica que uso há muito tempo, baseada nesse fato, para concluir que, ou estamos sozinhos, ou é impossível algum contato. Pois o autor faz justamente uma consideração de que talvez estejamos sozinhos da galáxia! O segundo, de George W.Swenson, Jr. (pp. 34-37) mostra que a potência requerida para uma transmissão dentro de nossa galáxia, que possa ser captada por nós, requer uma potência literalmente astronômica para transmissão omnidirecional (em todas as direções). Então, pergunto eu, por que se tem feito pesquisas tipo SETI? É que, do ponto de vista materialista, simplesmente não faz sentido sermos os únicos seres "inteligentes" no universo; a ânsia de provar que não somos únicos talvez ultrapasse o bom senso.

Pode ser que a Terra, o sistema solar e quiçá o universo não existam por acaso, e sim por nossa causa, como aliás foi teorizado pelos astrofísicos que desenvolveram a Teoria Antrópica do Universo (ver, p. ex., J.D.Barrow & F.J.Tipler, The Anthropic Cosmological Principle, Oxford Univ. Press, 1980). Eles simplesmente constataram que a quantidade de coincidências nesses sistemas é de tal ordem de magnitude que talvez se possa admitir cientificamente que não há coincidência coisa nenhuma, tudo isso existe por nossa causa. Que dignidade, que responsabilidade adquirimos com um pensamento desses! É interessante observar que, dentro desse raciocínio, os antigos sistemas geocêntricos estavam absolutamente corretos, não do ponto de vista físico, mas do ponto de vista não-físico. Pode-se também admitir cientificamente que o desvio para o vermelho não seja devido ao afastamento mútuo das galáxias, mas a alguma atração gravitacional, e portanto o universo não está em expansão e não houve "Big-Bang". Infelizmente esqueci-me do nome do astrônomo que formulou essa hipótese, e que por causa disso foi relegado ao ostracismo pela comunidade astronômica: conforme li há muito anos na revista Sky and Telescope, que eu assinava, começaram a negar-lhe tempo para observações nos telescópios, seus artigos eram passados indefinidamente de um revisor para outro, etc. É como digo em algumas de minhas palestras: "se quiserem achar preconceitos, vão a um ambiente acadêmico ou de pesquisa!" O primeiro preconceito é negar qualquer possibilidade da existência de processos não-físicos em nós e no universo, e que eles podem ser pesquisados, o que infelizmente transparece na posição de Marcelo Gleiser - ou será que estou errado? Vejamos.
[Pg. 396. Como vimos, a cosmologia é a única da Física que lida com questões que podem também ser legitimamente formuladas fora do discurso científico.]

Não, não me enganei. Gleiser continua recusando-se a admitir que há possibilidade de se estender o discurso científico para abarcar questões que são excluídas do discurso atual. Ele começou seu livro fazendo uma resenha de alguns mitos da criação. Mas para ele, esses mitos são questões religiosas, que fogem à possibilidade de compreensão, e tratam de questões de fé. Ele está correto quanto às religiões antigas, as tradicionais e as muitas novas "Igrejas" que pululam por aí arregimentando os incautos. Só que hoje já existe a possibilidade de se lidar com questões não-físicas conservando os princípios fundamentais que deveriam nortear uma ciência humana. Obviamente os mitos que ele cita não são compreensíveis com o discurso atual da ciência. Mas isso não significa que esse discurso não pode ser ampliado. Basta para isso ter coragem de se sair do poço do materialismo, sem abdicar da objetividade, da consciência na experimentação e na transmissão de conhecimentos por meio de conceitos. Isso É possível, e já foi feito.

Epílogo
Espero não ter dado a impressão de que o livro de Gleiser não tem valor. Muito pelo contrário, acho-o de valor imenso, por mostrar de maneira extremamente agradável, simples, didática e bem escrita a história e a situação da Física e da Astronomia. Li-o com imenso prazer, e aprendi muito com ele. Admiro-o também pela coragem de abordar os aspectos dos mitos da criação, e tentar traçar paralelos entre antigas visões de mundo e os atuais conceitos da ciência, como aliás já tinha sido feito por Fritjof Capra, em O Tao da Física, São Paulo: Cultrix 1986 (curiosamente, não citado por Gleiser, quem sabe pela afiliação do primeiro com o movimento "New Age" e seu claro orientalismo - com o qual não estou de acordo, por sinal). A propósito, transparecem nesse livro as possibilidades de interpretar algo que não foi formulado conceitualmente, e sim por imagens, como os mitos - no caso do extremo oriente, são antiquíssimos, pré-históricos, muito anteriores à sua gravação escrita - associando-os a conceitos modernos. Tem-se a nítida impressão que essas associações são arbitrárias.
Fico, também, agradecido pelo livro ter me inspirado e impulsionado a escrever estas reflexões. Minha intenção foi a de mostrar que existem outros aspectos a considerar, e que não contradizem os fatos científicos conhecidos hoje - apesar de contradizerem os julgamentos científicos correntes e principalmente o paradigma central da existência exclusiva de processos físicos, que denominarei aqui de "Paradigma da Exclusão" (exclusão do não-físico). Para isso, enfoquei o livro sob o prisma de uma visão realista (que leva em conta a existência tanto da matéria como do não-físico), mostrando a necessidade de ampliar a atual visão científica extremamente parcial, para que a ciência possa abordar questões fundamentais que estão escapando à sua compreensão, e começar a abarcar questões essencialmente humanas sem reduzir o ser humano a uma máquina, isto é, preservando e aumentando sua dignidade dentro do próprio âmbito científico, sem apelar para religiões e crenças. O pobre cientista que precisa apelar para esses âmbitos tem necessariamente uma vida e uma personalidade duplas. Há bastante tempo Clodowaldo Pawan, o conhecido geneticista brasileiro, num debate comigo no Instituto de Física da USP, afirmou algo como: "Durante a semana eu coloco meu avental e vou para o laboratório. Nos Domingos eu coloco meu terno e vou à Igreja. Isso é muito natural." Tenho a impressão que Marcelo Gleiser também acharia isso perfeitamente natural e aceitável. Eu não. Eu sou um só, e não posso encarar o mundo de duas maneiras diferentes, mesmo que o seja em dias diferentes. Não posso ter duas atitudes diferentes, opostas até, por exemplo uma em que não entram considerações de moral e na outra em que elas entram (ver a introdução acima). Se a ciência eliminar o seu restritivo Paradigma da Exclusão, substituindo-o pelo que vou chamar de Paradigma da Unificação, poderá caminhar para uma unificação que leve o cientista não-materialista a fazer uma ciência que não mais dilacere sua personalidade em duas conflitantes. Além disso, poderemos ter uma ciência que, tenho certeza, nos levará a uma compreensão do mundo muito mais profunda e abrangente, e a uma tecnologia responsável.